sábado, 27 de junho de 2026

Ferramenta eletrônica revela R$ 1 bilhão em renúncias fiscais no RS

Eduardo Jaeger, presidente da Afisvec, destaca o valor

Eduardo Jaeger, presidente da Afisvec, destaca o valor

/Afisvec/Divulgação/JC
Osni Machado
Osni MachadoColunistaAs renúncias fiscais concedidas pelo governo gaúcho por meio do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) alcançam atualmente cerca de R$ 1 bilhão por mês, montante equivalente a aproximadamente 25% da arrecadação do tributo. Os números são acompanhados pelo Incentivômetro, ferramenta eletrônica desenvolvida pela Associação dos Auditores-Fiscais da Receita Estadual do Rio Grande do Sul (Afisvec), que contabiliza, em tempo real, os valores que o Estado deixa de arrecadar em razão dos benefícios fiscais concedidos à iniciativa privada.
Criado para ampliar a transparência sobre os investimentos indiretos realizados pelo poder público, o sistema passou por aperfeiçoamentos metodológicos ao longo dos anos. O presidente da Afisvec, Eduardo Jaeger, auditor-fiscal da Receita Estadual e dirigente da entidade, afirma que a divulgação desses dados permite à sociedade compreender a dimensão dos recursos destinados ao setor privado e avaliar as políticas de desoneração tributária. Jaeger detalha um pouco mais o assunto em entrevista ao Jornal do Comércio.
JC Contabilidade – O que é o Incentivômetro e qual foi a motivação para a sua criação?
Eduardo Jaeger – A motivação principal da criação do Incentivômetro foi contrapor a informação que circulava à época de que o Estado investia muito pouco, referindo-se apenas aos valores destinados no orçamento estadual. Na realidade, esses montantes deveriam considerar também as renúncias fiscais. Foi assim que nasceu a ideia do Incentivômetro e os vultosos valores dispensados indicam que a Afisvec estava correta ao realizar essa contabilização.
Contab – Por que a Afisvec classifica o Incentivômetro como um instrumento de transparência pública?
Jaeger – Porque mostra para a sociedade os valores investidos na iniciativa privada por meio dos benefícios fiscais e tributários.
Contab – Como funciona o cálculo apresentado pelo contador eletrônico?
Jaeger – O cálculo é feito de acordo com os valores de isenção, redução de base de cálculo, créditos presumidos e outros mecanismos de redução do recolhimento do ICMS divulgados pela Receita Estadual do Rio Grande do Sul em seu relatório de desonerações tributárias.
Contab – O que representa, na prática, a renúncia fiscal em ICMS?
Jaeger – Na prática, ela se traduz na redução ou exclusão dos valores que os contribuintes do ICMS beneficiados pelas políticas de desoneração deveriam recolher do imposto.
Contab – Por que o Incentivômetro passou por diversas revisões metodológicas desde o seu lançamento?
Jaeger – Porque, ao longo dos anos, a Receita Estadual foi refinando e melhorando as informações sobre as renúncias fiscais.
Contab – O que mudou nas metodologias adotadas ao longo dos anos?
Jaeger – A mudança ocorreu basicamente nos valores de isenção, que antes eram calculados por estimativa e hoje correspondem aos valores efetivamente abdicados em favor dos contribuintes beneficiados por esse instrumento tributário.
Contab – Qual é a importância de divulgar os valores das renúncias fiscais para a sociedade?
Jaeger – Para que os cidadãos possam ter uma dimensão correta de quanto o Estado investe na iniciativa privada, muito além dos meros recursos orçamentários regularmente destinados com esse fim específico.
Contab – A transparência sobre os incentivos fiscais contribui para a avaliação das políticas públicas?
Jaeger – Sim. Ao sabermos quanto o Estado abre mão em favor da iniciativa privada, podemos aferir, inicialmente, a grandeza desses benefícios e, posteriormente, avaliar o mérito dos mesmos.
Contab – Qual é a relevância dessas informações para profissionais da contabilidade e do setor empresarial?
Jaeger – Saber quanto de ICMS está sendo dispensado de ser recolhido nos diversos segmentos empresariais.
Contab – As projeções mais recentes indicam que as renúncias fiscais continuarão crescendo?
Jaeger – As renúncias atualmente estão na casa de R$ 1 bilhão por mês, o que representa algo ao redor de 25% da arrecadação do ICMS. Esse percentual vem sendo observado ao longo do tempo. O crescimento das renúncias praticamente acompanha o crescimento do imposto.
Contab – O Incentivômetro pode contribuir para qualificar o debate sobre reforma tributária e responsabilidade fiscal?
Jaeger – Todo instrumento que mede as renúncias é extremamente importante, tanto em tempos normais quanto em períodos de reforma. Contudo, com a entrada do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a mudança da tributação para o destino, esses benefícios tendem a ser reduzidos ou passarão a ser concedidos por via orçamentária, afetando de forma mais direta o orçamento estadual.
Contab – Quais são os próximos passos para ampliar o alcance do projeto?
Jaeger – Por ora, o projeto segue como está, mas o ideal seria que houvesse um contador físico, nos moldes do Impostômetro, exibido em algum local público de destaque. O Impostômetro é uma ferramenta que calcula e exibe, em tempo real, o valor total pago em impostos, taxas e contribuições pelos contribuintes do Rio Grande do Sul aos cofres públicos.
Contab – Quais são as suas considerações finais?
Jaeger – Acompanhar onde são aplicados os recursos públicos, seja pelas renúncias fiscais, seja pela despesa pública, deveria ser algo natural para uma sociedade madura, que tem consciência de como são utilizados os recursos arrecadados pelo poder público por meio da cobrança de impostos.

Construir sistema de alertas de terremotos na Venezuela seria missão de décadas, diz especialista

Até sexta-feira (26), as autoridades haviam confirmado 920 mortos e 4.300 feridos após o terremoto

Até sexta-feira (26), as autoridades haviam confirmado 920 mortos e 4.300 feridos após o terremoto

FEDERICO PARRA/AFP/JC
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Agências
Mesmo localizada no encontro de duas placas tectônicas, a Venezuela não conta com um sistema robusto de alerta de terremotos, como outras nações que também estão em áreas instáveis, e grande parte da população foi avisada dos tremores de quarta-feira (24) por um sistema do Google.
Para Robert-Michael de Groot, cientista físico do USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos), a alternativa da big tech é uma boa solução para nações que não contam com outras ferramentas para avisar seus habitantes de sismos, mas a construção de um sistema próprio é um investimento que vale a pena porque salva vidas.
O problema, diz, é a complexidade desse tipo de infraestrutura. "Construir um sistema completo, como nos EUA, levou décadas", afirma ele à Folha. O cientista é o líder da equipe de operações do ShakeAlert, o Sistema de Alerta Antecipado de Terremotos gerenciado pelo USGS.
"Nos EUA, os alertas vão para celulares, mas também para infraestrutura, reduzindo a velocidade de trens e abrindo portas de quartéis de bombeiros", diz. "É um desafio de infraestrutura muito amplo."
Em uma realidade como a da Venezuela, em crise econômica há mais de uma década e com outros problemas estruturais sérios na fila, como o que sujeita a sua população a constantes apagões e falta de água, a perspectiva pode ser ainda mais pessimista.
O desafio, no entanto, é generalizado, segundo ele. "São necessários muitos recursos. Não vejo isso como um problema específico da América Latina ou do Caribe", afirma. "No México, por exemplo, depois do terremoto de 1985, eles construíram um sistema de alerta, mas levou muito tempo e muitos recursos."
O tremor ao qual se refere alcançou magnitude 8 e matou milhares de pessoas – a cifra varia de 5.000, segundo o governo, a 45 mil, segundo o Serviço Sismológico Nacional do México. Fato é que o desastre impulsionou o país a construir uma rede de alertas.
Logo no ano seguinte, foi criado o Cires (Centro de Instrumentação e Registro Sísmico), e, em 1991, o sistema já estava operando. Apenas nos anos 2000, porém, após um tremor atingir Oaxaca, a ferramenta passou por ampliações que a deixariam mais eficiente.
"Para ter um sistema robusto de alerta precoce de terremotos, você precisa de muitas estações sísmicas detectando o movimento do solo e uma rede de comunicação eficiente para levar essa informação do ponto onde o tremor é detectado até onde ela será processada e distribuída", explica Groot.
Os desafios incluem também instruir a população sobre o que fazer. Em geral, esses alertas dão algumas orientações, como "abaixe-se e segure-se", por exemplo, e o cidadão precisa ter alguma noção de como se proteger. "Mesmo com o melhor sistema do mundo, se as pessoas não souberem como agir, ele não ajuda muito", afirma o cientista.
Até alcançar esse sistema, é positivo que se possa contar com a alternativa do Google. Às 18h04 locais de quarta (19h04 no Brasil), milhões de celulares Android receberam a seguinte mensagem na Venezuela: "É possível que você sinta tremores. Magnitude estimada inicial de 6,2 a aproximadamente 356 quilômetros de distância".
De acordo com Groot, a companhia usa os sensores de aceleração e localização dos celulares para detectar o terremoto, e então calcula quem deve receber os alertas. "Esses alertas têm sucesso limitado, mas ainda não sabemos os detalhes exatos porque precisamos falar com nossos colegas do Google", afirma.
Ele acrescenta, ainda, que há outros problemas na região. "Se você está em um prédio mal construído, pode não haver tempo suficiente para reagir antes do colapso", diz. Na quarta, o serviço americano afirmou que "de modo geral", a área atingida tinha "estruturas vulneráveis a tremores sísmicos."
Um estudo de 2017 que analisou mais de 600 casas populares em Caracas, Guarenas e Guatire, justamente os locais que sofreram os maiores impactos nos terremotos de quarta, indicou um grau de vulnerabilidade sísmica "alta a muito alta" nas construções, os mesmos observados em edifícios que desabaram no terremoto de Caracas, em 1967, e de Cariaco, em 1997.
Até esta sexta-feira (26), as autoridades haviam confirmado 920 mortos e 4.300 feridos, mas a expectativa é de que o número cresça nos próximos dias. O USGS calcula que há 42% de chances de que a cifra total de óbitos fique entre 10 mil e 100 mil, e a ONU estima mais de 50 mil desaparecidos.
"Em terremotos como esse, intensos e com muitos prédios colapsados, vai levar tempo para chegar aos números reais de afetados", afirma, comparando o desastre ao do Haiti, em 2010, e ao da Indonésia, de 2004. "O que se vê imediatamente após o evento é só uma parte. O número vai crescer consideravelmente nos próximos dias e semanas."